Beet/nick #021| o mundo é da Shakira, nós só vivemos nele!
A latinidade como força cultural contínua e validada em escala
Nessa edição vamos voltar ao tema Latinidades. Se a primeira edição, em fevereiro, foi motivada pela histórica e imensa participação do Bad Bunny no Super Bowl, a de hoje vem trabalhada no suingue colombiano da maior estrela pop de Sudamérica: Shakira.
Então hoje vamos falar sobre o show da Shakira em Copacabana, como o hype de latinidades vêm se mantendo no ano e comentar o sucesso global de produções latinas no streaming e no cinema.
Boa notícia: agora é possível ter a edição em PDF, fazendo o download direto no site da Beet:
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🟣 Carta da CEO: a importância de estar no palco certo
Por Catarina Cicarelli, CEO da Beet
O show de Shakira em Copacabana, no dia 2 de maio de 2026, reuniu cerca de 2 milhões de pessoas e gerou um impacto econômico estimado entre R$ 776 e R$ 800 milhões. Números dessa escala ajudam a entender como certos eventos deixaram de operar apenas como entretenimento para funcionar como plataformas de projeção global.
Copacabana se consolida como um desses palcos. Depois de Madonna, em 2024, e Lady Gaga, em 2025, a apresentação de Shakira — a primeira artista latina a alcançar esse marco no local — reforça uma lógica de continuidade. Não se trata de um acontecimento isolado, mas de uma sequência que posiciona a cidade como ponto recorrente no circuito internacional de grandes eventos.
A repercussão fora do Brasil amplia esse efeito. Veículos da Colômbia, dos Estados Unidos e da Espanha destacaram o show como o maior da carreira da artista, enquanto o jornal El Mundo a descreveu como a primeira latina a fazer história em Copacabana. A transmissão televisiva, a circulação de imagens e a cobertura global transformam o evento em narrativa compartilhada em múltiplos mercados.
Nesse contexto, a presença latina ganha consistência e escala. Música, audiovisual e performance passam a ocupar espaços centrais de circulação, alterando o lugar de países como o Brasil dentro da dinâmica cultural global. Estar nesse palco passa a significar participação ativa em uma infraestrutura que conecta visibilidade, economia e influência.
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📌 Repercussão na imprensa internacional
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🔵 Letras latinas em novas chaves
Por Gaía Passarelli, Head de Projetos Especiais da Beet
O boom da literatura latino-americana, consolidado em meados do século XX com autores como García Márquez e Vargas Llosa, organizou a projeção internacional do continente a partir de uma linguagem reconhecível. O realismo mágico operou como uma chave de leitura que permitia a circulação dessas obras em escala global, estabelecendo um repertório que, por décadas, funcionou como referência dominante.
Mas nosso ponto aqui é que essa centralidade vem sendo progressivamente deslocada. A produção de literatura latinoamericana contemporânea, principalmente através de autoras, vem se se estruturando a partir de urgências e enquadramentos distintos que, se por um lado não rompem com tradições, por outro se bastam sozinhas, com menor dependência de mediação simbólica e maior aderência a conflitos concretos.
Violência, estruturas de poder, heranças coloniais e os efeitos de regimes autoritários aparecem como matéria narrativa direta, sem a necessidade de reorganização estética que suavize ou traduza essas experiências.
Esse movimento se torna mais visível quando observado pelo prisma das premiações recentes. Nos últimos anos, autoras latino-americanas vêm acumulando reconhecimento em prêmios de ficção, ensaio e tradução, tanto em circuitos regionais quanto internacionais, com recorrência suficiente para indicar um padrão.
A celebrada argentina Samanta Schweblin venceu, em abril de 2026, a primeira edição do Prêmio Aena de Narrativa Hispano-americana com o livro de contos O bom mal (publicado no Brasil pela Fósforo em 2025). A premiação chamou atenção pelo valor (um milhão de euros!) colocando a autora em um grupo restrito de escritores associados a distinções literárias dessa magnitude. E também chama a atenção a escolha de premiar um livro de contos, formato tradicionalmente (e injustamente) esnobado como de menos fôlego, ou menor.
Criado pela gestora espanhola de aeroportos Aena, o prêmio desloca a lógica tradicional de legitimação literária. Com 1 milhão de euros para a obra vencedora e 30 mil euros para cada finalista, a iniciativa levou para o centro do circuito cultural um agente vindo de fora do mercado editorial, ligado a infraestrutura, mobilidade e serviços. A repercussão — descrita pelo jornal português Público como “desconcerto” — indica uma mudança maior: cultura e economia passam a disputar os mesmos espaços de circulação, prestígio e influência.
No Brasil, Luciany Aparecida e Eliane Marques foram os principais nomes do Prêmio São Paulo de Literatura 2024, levando as categorias de melhor romance (Mata Doce, publicado pela Companhia das Letras) e melhor romance de estreia (Louças de Família, publicado pela Autêntica), em uma premiação que distribui 200 mil reais e funciona como um dos principais indicadores de reconhecimento literário no país.
Em 2026, a presença da carioca Ana Paula Maia entre os finalistas do International Booker Prize 2026 se insere nesse contexto. Seu romance Assim na Terra como Embaixo da Terra, publicado no Brasil em 2017 e traduzido como On Earth As It Is Beneath, trabalha a brutalidade do sistema carcerário e a vida à margem como eixo central. A indicação para um prêmio que reconhece obras traduzidas para o inglês, com resultado previsto para 19 de maio no Tate Modern, em Londres, indica que esse tipo de abordagem encontra ressonância em circuitos globais de leitura.
O que se desenha a partir desse conjunto não é uma nova estética dominante, mas um campo mais distribuído, em que diferentes formas de narrativa convivem sem depender de uma chave única de interpretação.
A literatura latino-americana contemporânea não se organiza mais em torno de uma identidade facilmente reconhecível para fora, e isso altera a forma como ela circula.
As premiações ajudam a evidenciar essa mudança porque funcionam como pontos de validação institucional. Quando diferentes autoras, em diferentes países e gêneros, passam a ser reconhecidas de forma recorrente — e, em alguns casos, com valores e estruturas que reposicionam o próprio sistema de prêmios — o que se consolida é uma ampliação do espaço de leitura para obras que operam a partir de seus próprios contextos.
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📌Ana Paula Maia: A escritora brasileira finalista de um dos mais importantes prêmios do mundo (BBC Brasil)
🟢O audiovisual latino como motor contínuo de atenção global
Por Rodrigo Sérvulo, Head of Comms da Beet
“Right now, when a Brazilian movie comes to town, the smart bet is to see it”
Foi assim que a crítica de cinema do LA Times, Amy Nicholson, se referiu à estreia do filme O Último Azul nos Estados Unidos. Depois de dois anos consecutivos de filmes brasileiros figurando não só na lista de Melhor Filme Internacional no Oscar, mas extrapolando indicações para Melhor Filme, Atuação e, no caso de O Agente Secreto, Melhor Direção de Elenco, não é de se estranhar que ganhamos uma tração na atenção global quando se fala de cinema.
Mas talvez esse momento do audiovisual não páre no cinema
A série Emergência Radioativa, sobre o acidente do Césio-137 em Goiânia nos anos 1980, atingiu quase 11 milhões de visualizações em duas semanas, se tornando a série em língua não-inglesa mais vista da Netflix. E quem andou pelas redes sociais recentemente pode ter se deparado com indianos maravilhados com a novela O Caminho das Índias, em choque que Juliana Paes não divide o mesmo passaporte que eles.
E isso não fica restrito ao Brasil. Os nossos vizinhos latino-americanos também estão recebendo atenção para suas produções audiovisuais. Em visita ao México, o CEO da Netflix, Ted Sarandos, revelou que 45% de toda a audiência das séries latino-americanas vem de outras regiões. É o caso de séries como as ótimas Cem Anos de Solidão, O Eternauta, El Diablero e Cometierra, baseada na obra da escritora argentina Dolores Reyes
Estamos vendo produções latinas deixando de ocupar nichos para disputar atenção em escala global. Histórias que retratam a realidade local, com nuances e símbolos muito específicos da região, como o realismo fantástico, os fantasmas das ditaduras militares e intensa desigualdade social e a rica cultura miscigenada, ganham força ao se conectar com temas universais.
O ecossistema audiovisual da região está em clara expansão, sustentado pela descentralização das plataformas, cada vez com mais escritórios e estúdios globais, e por leis locais de fomento à produção nacional em cada país. Brasil e México já são os dois maiores mercados da Netflix fora dos EUA e 124 plataformas de streamings estão disponíveis aqui no país.
O que se vê é um fluxo contínuo de produção e consumo cada vez mais globalizado.
Junto ao crescimento da relevância política e econômica da região, à potência da música latina especialmente entre os mais jovens e o crescente interesse em nós e nossos vizinhos como destino turístico, o cinema e a TV latino-americanas revelam uma das principais engrenagens da cultura hoje: a conquista da atenção.
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📌 O que é real e o que é ficção em Emergência Radioativa (Governo do Brasil)
📌 Netflix expande sua presença no México com mais de 50 projetos e um novo escritório na capital (Netflix)
📌 Brasil é a terceira maior receita da Netflix e o segundo país em assinantes, diz estudo (JovemNerd)
🟠Shakira e o tempo de uma estrela global
A trajetória de Shakira nos permite observar com alguma precisão o que sustenta relevância em escala global ao longo de décadas: consistência.
Desde o início dos anos 2000, sua presença atravessa diferentes ciclos da indústria musical, acompanhando mudanças de formato, linguagem e distribuição sem perder reconhecimento imediato.
Essa continuidade se constrói por um equilíbrio consistente entre adaptação e identidade. Ao longo do tempo, Shakira incorpora novas sonoridades, colaborações e dinâmicas de circulação (do rádio ao streaming, da TV ao ambiente digital) mantendo elementos centrais que organizam sua imagem: ritmo, performance corporal e uma identidade latina que não se dilui ao dialogar com o mainstream global.
Esse ponto ajuda a explicar sua capacidade de atravessar gerações. A artista consegue se inserir em novos contextos culturais sem romper com a base que a consolidou, o que permite que diferentes públicos reconheçam sua presença a partir de referências distintas, mas compatíveis.
O show em Copacabana, em 2026, reforça essa leitura. Ao reunir dois milhões de pessoas e ser tratado como o maior de sua carreira pela imprensa internacional, o evento evidencia que sua relevância não está associada a um momento específico, mas a uma permanência construída ao longo do tempo. Mesmo com críticas pontuais, o alcance do espetáculo e sua repercussão global mantêm a artista em posição central.
O que se observa não é apenas longevidade. Em um cenário marcado por ciclos rápidos de atenção, a trajetória de Shakira indica que seguir em movimento depende menos de reinvenções radicais e mais da capacidade de sustentar, ao longo do tempo, uma identidade reconhecível em diferentes contextos culturais.
🔴 O backend da América Latina
O evento Shakira em Copacabana ajuda a visualizar uma camada evidente da integração latino-americana: a cultura que circula, mobiliza multidões, cria desejo turístico e reposiciona cidades no mapa global da atenção.
E, por baixo dessa superfície, existe outra integração em curso, que é menos visível, mais operacional, ainda incompleta e muito importante: a América Latina começando a funcionar como ecossistema econômico-cultural, sustentado por empresas, plataformas e infraestruturas digitais que reduzem fricções no cotidiano.
Isso se comprova a partir de fintechs, super apps, marketplaces, bancos, companhias aéreas, sistemas de pagamento e soluções de logística que vêm criando uma base comum de serviços que conecta pagamentos, consumo, mobilidade, turismo e circulação de pessoas em escala regional.
O movimento não transforma a região, ainda, em um sistema integrado nos moldes da União Europeia ou do eixo Estados Unidos–Canadá–México. A América Latina segue marcada por moedas diferentes, regulações fragmentadas, infraestrutura física desigual e baixo comércio intrarregional — cerca de 15% das trocas externas da região, muito abaixo de outras zonas econômicas. Ainda assim, há uma integração prática acontecendo por baixo, puxada menos por grandes acordos políticos e mais pelo uso cotidiano de plataformas.
Mercado Livre, Mercado Pago, Rappi, DLocal, bancos regionais e companhias como Latam compõem parte desse núcleo operacional. O Mercado Livre combina marketplace, logística e pagamentos em diferentes países da região, com mais de 148 milhões de usuários ativos e uma malha que articula consumo digital e entrega física. A Rappi atua em nove países, com mais de 35 milhões de usuários ativos, operando como super app de delivery, pagamentos, medicamentos e turismo. A DLocal, do Uruguai, funciona como trilho de pagamentos cross-border, conectando comerciantes globais e locais a sistemas financeiros latino-americanos.
O ponto central é que essas empresas não vendem somente seus serviços, mas criam padrões de uso. Interfaces, carteiras digitais, meios de pagamento, recomendações, entregas rápidas e experiências de compra passam a funcionar de maneira parecida em diferentes mercados, ainda que adaptadas às regras, moedas e hábitos de cada país.
O continente não tem um “single market” digital, mas já opera com uma camada comum de UX e infraestrutura.
É nessa camada que a ideia de backend ganha força. Enquanto a cultura aparece como face pública da latinidade — música, shows, séries, turismo, gastronomia, moda —, plataformas financeiras e operacionais viabilizam a conversão dessa atenção em fluxo econômico. A pessoa compra a passagem, paga o transporte, reserva a hospedagem, consome no evento, pede comida, compra ingresso, assina streaming, usa wallet, parcela, recebe cashback. A experiência cultural passa por sistemas que organizam dinheiro, deslocamento e dados.
A integração é mais forte justamente nos pontos em que a fricção pode ser resolvida por software: pagamentos digitais, crédito, mobilidade urbana, ecommerce e turismo via plataformas. A América Latina é uma das regiões de crescimento mais acelerado em pagamentos digitais, com projeção de CAGR de 29% em pagamentos em tempo real até 2027. No transporte público, pagamentos por aproximação já aparecem em dezenas de cidades latino-americanas, integrando ônibus, metrôs e trens a uma lógica de consumo mais fluida.
Mas o backend ainda encontra limites muito concretos. A logística material segue mais difícil que a circulação digital. Rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e fronteiras pouco integradas elevam custos e impedem que bens circulem com a mesma facilidade com que conteúdos, pagamentos e interfaces atravessam a região. A regulação também impõe barreiras: cada país tem seus próprios sistemas financeiros, normas técnicas, regras comerciais e políticas de incentivo.
Entender essas diferenças é importante para não romantizar a ideia de continente conectado.
O que existe hoje é mais uma confluência de plataformas do que uma integração plena. Super apps e fintechs criam experiências parecidas, mas não eliminam as assimetrias. A promessa de fluidez convive com informalidade, concentração de mercado, dependência de infraestrutura global e captura de dados por grandes plataformas.
Ainda assim, a direção é clara. A latinidade vem funcionando como infraestrutura de identidade e experiência, enquanto startups e empresas regionais constroem os trilhos por onde valor, consumo e atenção passam a circular. O continente conectado não nasce apenas do repertório cultural compartilhado. Ele depende de sistemas capazes de transformar essa afinidade em operação: pagamento, mobilidade, logística, turismo, crédito e distribuição.
Nesse sentido, o backend da América Latina talvez seja uma das camadas mais relevantes para entender por que a cultura latina ganhou tanta força global. A superfície encanta; o sistema permite que ela escale.
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📌 Da música ao streaming: por que a cultura latina virou o novo motor dos negócios globais (Times Brasil)
📌 Rappi, Stone e Mercado Livre lideram “máfias tech” na América Latina (Neofeed)
🎙️É Sobre Isso: S02E05: fazendo boas perguntas
No novo episódio do É Sobre Isso parte de uma habilidade tão simples quanto subestimada: saber perguntar.
Em um ambiente saturado de respostas rápidas, diagnósticos prontos e opiniões superficiais, a qualidade de uma conversa muitas vezes depende menos do que se afirma e mais de uma pergunta capaz de organizar o pensamento.
Fazer boas perguntas exige escuta, repertório e timing. Não se trata apenas de formular algo supostamente inteligente, mas de entender quando uma pergunta abre caminho e quando ela interrompe, desloca ou empobrece a troca.
Há uma diferença importante entre perguntar para compreender e perguntar para marcar posição.
O episódio propõe uma reflexão sobre a pergunta como ferramenta de atenção. Quando bem colocada, ela ajuda a revelar camadas, reorganizar problemas e criar espaço para respostas melhores. Em processos criativos, conversas estratégicas ou relações de trabalho, saber perguntar pode ser o que separa uma troca protocolar de uma investigação real.
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