Beet/nick #018 | o fator humano no SXSW
O SXSW 2026 deixou um contraste claro entre o avanço da IA e o tipo de experiência que realmente engaja as pessoas.
Prestes a completar 30 anos de atividade (em 2027), SXSW segue um dos principais pontos de encontro para discutir o que está mudando no mundo.
Mas, em 2026, anda (mais) difícil criar uma narrativa única que dê conta dessa experiência.
Com centenas de sessões acontecendo ao mesmo tempo e uma produção massiva de conteúdo nas redes, o que chega para quem não está lá é sempre um recorte — muitas vezes repetido, simplificado e rápido demais para dar conta da complexidade.
Ainda assim, alguns sinais se destacam.
O questionamento ao formato tradicional de “relatórios de tendência”. O avanço da presença brasileira, com estruturas próprias de articulação e visibilidade. A tensão entre IA e experiência humana. E a dificuldade crescente de sustentar atenção em um ambiente onde tudo pode ser produzido em escala.
Nesta edição, trazemos diferentes olhares para organizar essas leituras — sem tentar fechar o que, por definição, ainda está em aberto.
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🟣 Carta da CEO:
Por Catarina Cicarelli, CEO da Beet
Rolou uma cena curiosa em Austin: um funeral.
Amy Webb, que por anos apresentou um dos relatórios mais aguardados do SXSW, decidiu encerrar o formato ali mesmo — simbolicamente, em público. A justificativa foi simples e propositalmente incômoda: quando um relatório de tendências fica pronto, ele já nasce atrasado.
Mas Webb esqueceu que o ponto não é a velocidade, mas a forma como a gente aprendeu a olhar para o futuro.Durante anos, tratamos tendências como listas organizadas ao redor de tópicos que podiam ser consumidos, resumidos, apresentados em slides. Como se mudanças culturais profundas pudessem ser isoladas, nomeadas e distribuídas em capítulos anuais.
Isso cria uma ilusão (confortável!) de que o futuro pode ser acompanhado em edições. Só que comportamento humano não é simples assim.
O que Webb propõe, e que apareceu de várias formas ao longo do SXSW, é uma mudança de lente: sair da lógica de “tendências” e começar a observar convergências.
IA, robótica, geopolítica, trabalho, emoção. Nada disso está evoluindo separado. As transformações mais relevantes acontecem justamente na colisão entre esses sistemas. E colisões não só não cabem em caixinhas, como muitas vezes têm resultados inevitáveis.
Por isso, cada vez mais, os conteúdos que tentam resumir os grandes temas de cada ano parecem frágeis. Não porque estão errados, mas porque tentam simplificar demais algo ainda em formação e que, por natureza, é complexo.
A gente já vinha discutindo isso por aqui na beet/nick: quando tratamos tendência como modinha, tiramos o peso de mudanças que, na prática, precisam de anos para se consolidar, e exigem leitura contínua e adaptações naturais.
O fim do trend report não significa que deixamos de olhar para o futuro. Significa que talvez a gente precise parar de tentar organizá-lo em PPTs.
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📌 The futurist who helped shaped tech reports just killed them (literally)
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🔵 SXSW já foi sobre música - e pra muitos ainda é
Por Gaía Passarelli, Diretora de Projetos Especiais da Beet
Extraordinariamente, hoje quero abrir o meu cantinho na Beet/nick com uma anedota pessoal. Vem comigo, prometo que faz sentido.
No final de 2010, eu estava, como se diz, eu era uma jovem mãe recém-divorciada esperando a nova fase da minha vida começar.
Enquanto as coisas não aconteciam, usei uns pontos de cartão de crédito e um resto de dinheiro na conta para planejar uma viagem solo pro Texas. O plano era pegar um carro em San Antonio, dirigir até a Terlíngua (eu tenho uma fixação com cidades-fantasma, mas isso é assunto pra outra hora), passar uns dias no deserto, dirigir de volta até Austin e me esbaldar na programação musical do SXSW.
Sim. Musical. Porque, muito antes do South by Southwest ser cooptado pela turma da inovação, ele era um festival de talentos musicais. O SXSW nasceu em 1987, em Austin, como um festival de música voltado a revelar talentos locais para a indústria, criado por um grupo ligado ao jornal local The Austin Chronicle - que ainda existe. A primeira edição teve um público de cerca de 700 participantes, e é um atestado da importância da cultura alternativa dos EUA que, em quase três décadas, o evento tenha se transformado em um dos principais encontros globais de cultura, tecnologia e criatividade.
De volta a 2011: não deu certo. Não do jeito que eu planejava. Na época, o evento já era enorme e atraía atenção adoidado, e usei essa atenção para fazer uma moral com meu novo empregador: a MTV Brasil. Sim, porque, antes de realizar meus planos de dirigir no deserto e dormir numa cidade fantasma, a vida aconteceu e eu fui convidada para integrar o então novo time de VJs da MTV, apresentando um programa de novas tendências musicais, na melhor tradição do 120 Minutos e Lado B — eu topei, claro, e juntei uma coisa com a outra, convencendo a direção a me deixar cobrir o que estivesse acontecendo de novo no SXSW.
Recebi o OK, eu e a diretora do programa voamos pra Austin com crachás da emissora, fizemos entrevistas com ilustres desconhecidos como Bosco Del Rey, Penguin Prison, FM Belfast e Ramona Gonzalez. Eu voltei com as mãos tatuadas e, se por um lado perdi de conhecer Terlíngua (por enquanto!), por outro estreei na TV fazendo aquilo que mais gostava de fazer: falar de artistas e bandas que ainda não estão no radar.
Tentar descobrir aquilo que ainda não está no radar e traduzir para uma audiência mais ampla ainda é um valor que me move. E sei que isso ainda faz parte do coração do megaevento de Austin: o subterrâneo, aquilo que passa batido para os grupos de camisetas de firma, disputando espaço nos eventos que todo mundo vai ver, todo mundo vai falar.
De volta a 2025: respiro (de longe) aliviada, porque, se tem um lugar onde o SXSW ainda escapa da lógica de resumo, é na música.
Mais de 1.100 artistas, mais de 200 palcos, dezenas de cenas acontecendo ao mesmo tempo — muitas delas sem fila, sem hype, sem “headline”. Não vão virar material de deck. Mas podem encontrar seus novos fãs do jeito que tem que ser: ao vivo.
Acredito que aí está a leitura mais fiel do que está mudando: em paralelo a palestras que querem nos fazer acreditar em conceitos vagos que tentam organizar um futuro hipotético, a música segue IRL, palpável, experiência em estado bruto acontecendo alheia ao algoritmo do Spotify.
Shows caóticos, mistura de gêneros, bandas tocando nove vezes na semana para públicos completamente diferentes. Do indie experimental ao regional mexicano dominando playlists. Do punk barulhento à apresentação surpresa que vira o momento mais comentado do festival.
Nada disso cabe em uma narrativa só, e esse é o ponto: uma leitura possível é que a música passa menos por identificar um “som do ano” e mais por observar o comportamento: circulação, mistura, repetição, descoberta.
E, diferente de outras áreas do festival, isso não parece um problema a ser resolvido — ainda bem!
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📌 Who Won SXSW 2026? The 20 Best Things We Saw in Austin (Rolling Stone)
📌 Live music review: The best music we saw at SXSW 2026 (The Cosmic Clash)
📌 Adult DVD, Gogol Bordello, Amie Blu: The Best Music We Caught at SXSW 2026 (Den of Geek)

🔴 Por que participar de um festival de ideias?
Por Anna Oliveira, Head de Data Strategy da Beet
O SXSW acabou, mas a programação global de grandes eventos de inovação e criatividade está longe do seu fim. Ontem mesmo começou o South Summit, em Porto Alegre, e, ainda no primeiro semestre de 2026, teremos o TEDx em Blumenau e o Web Summit no Rio de Janeiro. Isso só para ficar no Brasil.
Nós, da Beet, marcaremos presença neles todos — e mais outros ao longo do ano. Em parte porque temos clientes na programação e acompanhamos de perto seus movimentos, mas também para ampliarmos nosso repertório e fazermos network. Mais do que travarmos uma caçada obsessiva por tendências, como quem colecionava criaturas raras no Pokémon GO, fazemos questão de participar desses encontros para decifrar o zeitgeist, conhecer diferentes pontos de vista, diversificar referências e fortalecer conexões. Falar de tendências faz parte da jornada, mas não é o destino final.
Mas para muita gente, o hiperfoco em trend” é real. Prova disso é o censo mais recente do SXSW. Segundo os dados de 2025 do festival — as análises de 2026 continuam sendo consolidadas —, 42% dos participantes foram até Austin interessados nessa descoberta, para a infelicidade de Amy Webb que, na edição deste ano, anunciou o fim do tradicional relatório de tendências da Future Today Strategy Group, como a Cata comentou no primeiro texto de hoje.
Outras motivações que aparecem com ainda mais força são: busca por novas fontes de inspiração (apontada como principal objetivo por 48% dos participantes) e expansão da rede de contatos (47%). Aprender algo novo também mobiliza quase metade dos participantes, mostrando que o SXSW funciona tanto como termômetro quanto como espaço de formação.
Quem vai a um grande festival como o SXSW pode, sim, estar de olho em mapear o que vem adiante. Mas também pode olhar novas perspectivas e se expor a repertórios que dificilmente aparecem no nosso dia a dia.
🟢 Conexão SP-Austin
A SP House, espaço de encontros de criativos que parte de São Paulo para Austin, ajuda a explicar uma mudança concreta na presença brasileira no SXSW: o Brasil já não aparece só como público em busca de referência, mas como parte ativa da programação, das conversas e da circulação de ideias. Em publicação no LinkedIn, Franklin Costa destaca esse protagonismo ao citar a consolidação da São Paulo House, a estreia da Minas House e a presença brasileira em palcos, prêmios e no Startup Pitch.
Esse movimento é claro na reportagem “Interesse estrangeiro pelo Brasil cresce no SXSW, diz curador da SP House”, publicada por EXAME e assinada por Juliana Pio. Nela, Franklin afirma: “No início, os brasileiros vinham a Austin para se conectar com a inovação de fora. Agora, cada vez mais, estrangeiros buscam o que está sendo produzido no Brasil.” A matéria mostra que, no terceiro ano da SP House, o espaço ampliou sua atuação em Austin e passou a reunir debates, encontros de negócios, conexões e articulações com nomes da conferência e do mercado internacional.
A reportagem também detalha o papel da casa como plataforma de tradução e projeção: de um lado, aproxima temas do SXSW da realidade brasileira; de outro, apresenta ao público internacional o que o Brasil produz em inovação, criatividade e cultura. Nesse contexto, a SP House deixa de operar como presença institucional acessória e passa a funcionar como infraestrutura de visibilidade, curadoria e relacionamento.
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📌 OCLB no LinkedIn
📌 SP House
📌Interesse estrangeiro pelo Brasil cresce no SXSW, diz curador da SP House (Exame)
🔴 Human, after all
O SXSW 2026 deixou um contraste claro entre o avanço da IA e o tipo de experiência que realmente engaja as pessoas.
De um lado, as discussões.
Sessões como “Reclaiming Our Humanity in the Age of AI” e “The Dawn of Physical AI” giraram em torno de um mesmo ponto: IA amplia capacidade, mas não substitui julgamento, empatia e presença. Esses elementos apareceram de forma recorrente — não como discurso aspiracional, mas como limite prático da automação.
Do outro, a execução.
As ativações mais relevantes do festival foram físicas, exigiam corpo, tempo e interação direta.
A Rivian construiu uma pista off-road de cerca de 75 metros na Congress Avenue, permitindo test drive em terreno real. A IBM ocupou o JW Marriott com simuladores de corrida que combinavam IA e competição multiplayer ao vivo. A Superhuman transformou o Antone’s em um museu imersivo sobre a história da comunicação, com programação que misturava conteúdo, humor e música.
Outras marcas seguiram o mesmo caminho: Netflix com experiências sensoriais baseadas em Peaky Blinders, JBL com ambientes imersivos, eventos como o Fast Company Grill e o Solo Stove Block Party apostando em convivência e energia coletiva.
Esse conjunto aponta para um ajuste claro.
Quanto mais a produção digital se torna automática, mais valor ganham experiências que não podem ser reduzidas a interface. Textura, presença, imprevisibilidade e interação social deixam de ser complemento e passam a ser o centro.
Ao mesmo tempo, isso reorganiza o papel de quem produz conteúdo.
Com geração facilitada, o diferencial se desloca para seleção, leitura e construção de repertório. Não é sobre volume, é sobre decisão — o que entra, o que fica de fora, e como isso é articulado.
No SXSW 2026, a IA estava em todo lugar.
Mas o que mais mobilizou as pessoas aconteceu fora da tela.
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📌 Humanity Counters Robot Overload at SXSW 2026 - Book and Film Globe
📌 Insights from SXSW 2026: AI and Human Craft in Storytelling
📌 Confira as ativações de marcas do SXSW 2026
📌 SXSW 2026 Was a Field Test for the AI Future - FINN Partners
🎙️É Sobre Isso: a superidentificação com o trabalho
No segundo episódio do ano do É Sobre Isso, a conversa girou em torno de um padrão que aparece cada vez mais no trabalho: quando a identidade da pessoa se confunde com o papel que ela ocupa.
Essa hiperidentificação com o trabalho não acontece de uma vez. Ela se constrói aos poucos — na validação constante, na sensação de pertencimento, na forma como a empresa passa a organizar a narrativa sobre quem você é.
E é justamente aí que a discussão sobre tendência começa a ficar rasa.
Porque, quando a gente reduz comportamento a “tema do ano”, a gente ignora o tempo que essas dinâmicas levam para se formar — e, principalmente, o quanto elas se aprofundam antes de virarem visíveis.
Na bancada essa semana: Catarina Cicarelli, Cris Dias e a convidada Angélica Mari.
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🚀Sharing is caring: Youpix
Jim Louderback — uma das principais vozes globais da creator economy e ex-CEO da VidCon — abriu o SXSW com uma pergunta direta: o que acontece com criadores humanos quando a IA passa a gerar conteúdo infinito?
O contexto ajuda a dimensionar: hoje são cerca de 250 milhões de criadores no mundo, com projeção de chegar a 750 milhões nos próximos anos. A produção cresce em escala. A atenção continua limitada.
É nesse ponto que a leitura do YouPix ganha força.
Como consultoria pioneira em creator economy no Brasil, a YouPix acompanha de perto a profissionalização desse mercado — conectando marcas e criadores, estruturando estratégias e traduzindo movimentos que ainda estão se formando.
Leia outros grandes momentos do evento no Instagram do Youpix:
🙋🏼♀️Para fechar
Qual evento brasileiro vc não vai perder em 2026?
🏁 A beet/nick volta em quinze dias!
Mas você pode mandar pra alguém antes disso:






