Beet/nick #017 | digno de Oscar
O ritual cultural do cinema, os códigos do prestígio e a corrida que acontece muito antes da cerimônia
Todos os anos o Oscar reacende uma discussão recorrente: afinal, o que faz um filme merecer o prêmio mais famoso do cinema?
A resposta raramente é simples. Ao longo de quase um século, a premiação construiu uma linguagem própria de prestígio — um conjunto de sinais que mistura ambição artística, relevância cultural, reputação da indústria e uma boa dose de estratégia durante a temporada de premiações.
Nesta edição da beet/nick, olhamos para esse fenômeno de vários ângulos: o fascínio coletivo pelo Oscar, a história da premiação, os códigos que fazem um filme parecer “de Oscar” e os dados que mostram como o evento continua mobilizando milhões de pessoas ao redor do mundo.
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🟣 Carta da CEO: por que amamos tanto o Oscar?
Por Catarina Cicarelli, CEO da Beet
Já faz pra lá de uma década que eu organizo uma festa temática do Oscar. Começou pequenininha, só eu e meu tio, que é apaixonado por cinema. No ano seguinte, expandi para um grupo de amigos e, quando dei por mim, a coisa já tinha tomado uma proporção imensa, com mais de 50 convidados e uma lista de desconhecidos querendo participar. Tem tapete vermelho, decoração e todo mundo vai de black tie. Mas, mais do que um evento sofisticado, é um ritual. Amigos chegam, cozinham, fazem suas apostas, e passamos horas assistindo à cerimônia, comentando vestidos, discordando dos vencedores e defendendo nossos filmes favoritos como se estivéssemos em uma arquibancada.
Nos últimos anos, tinha dado uma pausa (até porque em 2025 o Oscar caiu bem no meio do Carnaval, outra grande paixão minha), só que com a vitória de “Ainda Estou Aqui” e as perspectivas de 2026 com “O Agente Secreto” não dava pra não retomar.
Poderia dizer que faço isso por amor ao cinema, e seria verdade - amo filmes! Mas, pensando melhor, talvez a motivação seja outra. Algo mais… coletivo.
É que o Oscar tem uma capacidade rara de transformar cultura em evento global. Não é de hoje, mas ganhou outras proporções depois das redes sociais. Mesmo quando ninguém viu todos os filmes indicados, todos têm uma opinião. A cerimônia vira uma espécie de campeonato simbólico da indústria criativa — com torcida, apostas e inevitáveis reclamações sobre injustiças.
É um grande ritual cultural: mistura glamour de celebridades, validação artística e uma dose generosa de drama competitivo. Mais do que um prêmio entre outros, virou um marcador cultural que indica quais histórias merecem atenção coletiva.
A premiação também tem impacto real na indústria. Uma indicação pode impulsionar carreiras, aumentar salários e provocar saltos de bilheteria para filmes que, até então, circulavam em nichos menores.
Existe ainda um fator psicológico. As pessoas buscam validação social e gostam de ver preferências individuais confirmadas por um grupo maior. Premiações oferecem exatamente isso: um momento em que gostos culturais recebem um selo coletivo de aprovação.
O Oscar também espelha debates da sociedade. Questões como diversidade, representatividade e inclusão frequentemente ganham visibilidade durante a temporada de premiações, transformando o evento em um espaço de disputa simbólica sobre cultura e valores. E durante algumas semanas, espectadores, críticos e profissionais da indústria discutem os mesmos filmes — concordando, discordando e reforçando o cinema como experiência coletiva.
E por aí, quais são suas apostas?
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🔵 O conceito de “filme de Oscar”
Por Gaía Passarelli, Diretora de Projetos Especiais da Beet
O Oscar nasceu em 1929, criado pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences como oportunidade de reconhecer a excelência no cinema e, de quebra, ajudar consolidar Hollywood como indústria cultural organizada. Eram doze categorias.
A própria Academia havia sido fundada dois anos antes, em 1927, por líderes do setor como Louis B. Mayer (o fundador da MGM). A intenção era profissionalizar o crescente mercado cinematográfico em um momento marcado por conflitos trabalhistas e escândalos públicos envolvendo artistas e estúdios.
A primeira cerimônia aconteceu no Hollywood Roosevelt Hotel, com cerca de 270 convidados. Os vencedores já eram conhecidos previamente pela imprensa — algo que só foi mudar em 1941 com a introdução dos envelopes lacrados, detalhe que ajudou a transformar a premiação em espetáculo que todos queriam acompanhar.
Dos anos 1940 pra cá, o Academy Awards (ou “Oscar”, para os íntimos) vem evoluindo com o cinema. Hoje, são 25 categorias, e uma Academia (o coro de votantes) sempre tentando se atualizar, refletindo mudanças tecnológicas, debates sobre representatividade e escândalos da indústria.
Um dos mais duradouros efeitos desse processo é o conceito de “filme de Oscar”.
Ele vem de elementos que aparecem com frequência entre indicados e vencedores: histórias baseadas em fatos (“Titanic”), dramas históricos ou biográficos (especialmente se tiver um/a protagonista em estado de graça, como a Marion Cotillard em “Piaf”), narrativas de superação (“Erin Brockovich”), adaptações bem sucedidas de obras literárias (“O Senhor dos Anéis”) e temas sociais ou políticos caros ao perfil de votantes da Academia (filmes de guerra). Quando acontece de algum filme vencedor ser um estranho no ninho, normalmente é em categorias de elenco, roteiro ou categorias técnicas.
Independentemente do tema, um“filme de Oscar” costuma reunir densidade emocional, ambição estética e temas considerados culturalmente relevantes em características que dialogam com os votantes da Academia. Com o tempo, esse repertório se consolidou como um estilo próprio. Antes mesmo de assistir, muitas pessoas percebem quando um filme “tem cara de Oscar”.
O curioso é que, nesse ponto, o prêmio já não funciona apenas como reconhecimento — e passou a moldar a própria ideia de importância no cinema.
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📌 Oscars: A look at how the categories have changed through time (Cultura Colectiva)
📌 Oscar-Winning Movies: The Canon That Defined Cinematic Greatness (St Augustine University)
🔴 Os dados do Oscar
Por Anna Oliveira, Head de Data Strategy da Beet
Mesmo em um cenário de fragmentação de audiência e competição com streaming e redes sociais, o Oscar continua sendo um dos eventos culturais mais acompanhados do mundo.
Hoje, o Oscar funciona menos como um programa de TV e mais como um evento multiplataforma que circula simultaneamente entre televisão, streaming e redes sociais.
Em 2025, a cerimônia atingiu 19,69 milhões de espectadores nos Estados Unidos, o maior número dos últimos cinco anos.
Parte desse crescimento veio do público mais jovem. A audiência entre pessoas de 18 a 49 anos aumentou 19%, impulsionada por transmissões via streaming e consumo em dispositivos móveis.
A cerimônia também gerou cerca de 104 milhões de interações sociais, tornando-se o evento televisivo mais comentado da temporada.
Os números mostram uma transformação importante: a audiência tradicional caiu em relação ao início dos anos 2000, quando o evento superava 40 milhões de espectadores, mas a conversa digital ampliou o alcance cultural da premiação.
Efeito pós-estatueta
Para além da atenção atraída antes e durante o evento, o Oscar também gera um impacto depois que a cerimônia termina. Isso porque, segundo uma pesquisa da YouGov, os prêmios influenciam o comportamento do público na hora de escolher o que assistir.
O levantamento divulgado agora em março mostra que 1 a cada 4 estadunidenses diz que uma vitória no Oscar aumenta a chance de ir ao cinema ver um filme premiado. Ou seja, o poder de mobilização da premiação perdura mesmo depois da transmissão da cerimônia — e ele também é observado na programação dentro de casa.
É que quase metade dos adultos (49%) disseram que levar uma estatueta aumenta a probabilidade de um filme ser assistido no conforto do seu sofá, seja via streaming ou aluguel digital. Entre o público mais engajado, que acompanha a premiação de perto, esse número sobe para 66%.
Resta saber, agora, quais produções vencedoras deste ano vão transformar o reconhecimento da Academia em audiência nas próximas semanas.
Quais são as suas apostas?
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📌 Deadline — Oscar ratings 2025 (Deadline)
📌 Updated Oscar Ratings: 5 Year High In Both Total Viewers And Adults 18-49 (Forbes)
🟢 Filmes em língua não inglesa: os números do Oscar
O Agente Secreto é o 19º filme em língua não inglesa a ser nomeado para a categoria de Melhor Filme na história de 97 anos do Oscar. O primeiro foi Z, de Costa-Gavras, em 1969, mas a produção franco-argelina não levou a estatueta para casa.
Foi só muuuuito mais tarde, em 2019, que Parasita, do sul-coreano Bong Joon-ho, conquistou o prêmio principal da Academia. Um intervalo de 50 anos para os jurados finalmente reconhecerem o óbvio: a qualidade do cinema global vai muito além da indústria hollywoodiana.
No total, filmes em língua não inglesa já acumulam 389 indicações e 51 vitórias fora da categoria de Melhor Filme Internacional, considerando mais de 200 títulos diferentes.
Essa história inclui marcos importantes para atores e atrizes. Sophia Loren foi a primeira pessoa a ganhar um Oscar por uma atuação em língua não inglesa, ao vencer como Melhor Atriz em 1961 pelo drama La ciociara, de Vittorio de Cica, interpretado em italiano.
Desde então, apenas mais uma atriz venceu nessa mesma categoria: Marion Cotillard, por sua interpretação de Édith Piaf em La Vie en Rose (2007), em francês. Nossa talentosíssima Fernanda Torres foi indicada na última temporada por Ainda Estou Aqui, mas infelizmente não levou — apesar que, nos corações dos brasileiros, ela é a grande vencedora. Assim como sua mãe, Fernanda Montenegro, que fez história como a primeira atriz latino-americana indicada ao Oscar de Melhor Atriz, em 1999, por sua atuação como Dora em Central do Brasil, de 1998.
Em 2026, é Wagner Moura quem mantém o Brasil no radar internacional, mostrando que o país continua produzindo talentos capazes de atravessar idiomas, fronteiras e premiações.
Curiosidade: apesar de 11 atores já terem sido indicados ao Oscar por interpretações em língua não inglesa, apenas um levou a estatueta de Melhor Ator: Roberto Benigni, em 1998, por A Vida é Bela.
Fica aqui a nossa torcida pelo baiano que tem o molho!
Fonte
📌 Oscar Awards Database
🔴 Qualidade é subjetiva — reputação não
Desde pelo menos a criação do Twitter (rip), o momento de premiação de “melhor filme” é seguido de incontáveis análises concordando e discordando. Em comum, todas tentam responder: mas era mesmo o melhor filme?
A pergunta parte de uma premissa complicada. “Melhor” é um conceito profundamente subjetivo. Cinema mobiliza repertórios pessoais, experiências culturais e expectativas estéticas diferentes para cada espectador.
E o Oscar opera em outra lógica.
A premiação organiza consenso dentro da própria indústria. Votantes da Academia são profissionais do cinema — produtores, atores, diretores, roteiristas e técnicos — e as escolhas refletem esse ecossistema.
Nesse contexto, a tal qualidade artística é só uma parte da equação.
Também entram em jogo aspectos como a relevância cultural (imediata ou não - e aqui às vezes o Oscar erra), o momento histórico, uma interpretação especialmente forte, a reputação crítica dos envolvidos em uma produção e, claro, a visibilidade durante a temporada de premiações - aspecto que destrinchamos na Beet Mag.
O resultado é algo que o público reconhece intuitivamente: certos filmes parecem “dignos de Oscar”. Não porque sejam unanimidades, mas porque combinam ambição artística, narrativa cultural e reconhecimento dentro da indústria.
🎙️É Sobre Isso: o retorno!
O podcast da Beet em parceria com a Ampère está de volta, e no primeiro episódio de 2026, retomamos as inquietações que trouxemos no primeiro episódio, ano passado, e que ganhou novas camadas: como vamos nos comunicar em 2026?
A conversa parte das previsões feitas para 2025 — o que se confirmou, o que perdeu força, o que se revelou ruído — e avança para as tensões que devem moldar 2026: adoção acelerada de IA, fragmentação de narrativa, ambiente informacional instável e responsabilidade crescente sobre cada fala pública.
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🚀Sharing is caring: Desafiador do Desconhecido
A newsletter indicada da semana é Desafiador do Desconhecido, escrita pelo jornalista brasileiro Rodrigo Salem diretamente de Los Angeles.
Há pelo menos duas décadas Salem acompanha os bastidores da indústria cinematográfica americana e, na sua newsletter, oferece uma leitura próxima de festivais, premiações e movimentos do mercado audiovisual.
Excelente complemento para quem gosta de entender o que acontece por trás das câmeras em Hollywood:
🙋🏼♀️Para fechar
Qual filme vai levar o prêmio mais importante nesse domingo?
🏁 A beet/nick volta em quinze dias!
Mas você pode mandar pra alguém antes disso:









Brigado pela recomendação. You rock.
Tem gente que começa a especular (apesar, obviamente do mérito de todos os filmes citados) que não é coincidência que o Oscar começou a "globalizar" as escolhas assim que viu sua audiência cair, e dada a natureza da indústria cinematográfica hollywoodiana, não dá para duvidar.