Beet/nick #015 | Beet Mag
Um complemento ao ecossistema que está sempre correndo demais
O que fica de fora quando toda ação precisa ser rápida?
Na edição passada da Beet/nick, falamos sobre fricções entre analógico e digital— e sobre como até a ideia de parar tem sido capturada pela lógica da urgência.
A edição de hoje retoma essa raiz e se organiza em torno de um tema especial para nós: a Beet Mag, uma publicação que celebra o terceiro ano de vida da Beet, ao mesmo tempo em que aponta temas que queremos debater em 2026.
A revista é uma edição única e está sendo distribuída a clientes e parceiros em um kit, como agradecimento por estarem conosco nesses três primeiros anos.
É um gesto editorial que contraria o ritmo imposto: uma revista impressa, com muito texto, feita para ser lida com calma. Não se trata de oposição ao digital, mas de um complemento necessário a esse ecossistema que está sempre correndo demais.
A Beet/nick é a newsletter da Beet no Substack e é publicada a cada quinze dias. Assine para receber ler todas as edições, e receber as próximas:
🟣 Carta da CEO: Tempo como critério
Por Catarina Cicarelli, CEO da Beet
Talvez soe estranho dizer isso sendo fundadora de uma agência de comunicação, mas PR não é algo que se terceiriza por completo.
Existe uma expectativa recorrente no mercado de que investir em um time ou em uma agência seja suficiente para que os resultados simplesmente apareçam. A lógica costuma ser direta: o contrato está assinado, as pessoas são boas, o trabalho vai acontecer. Na prática, não funciona assim.
A construção de reputação exige dedicação. E dedicação exige tempo — especialmente da liderança.
Não se trata de participar de todas as reuniões ou de centralizar decisões operacionais. Trata-se de estar perto o suficiente para dar direção, explicar o negócio com calma, abrir contexto, compartilhar visão. Comunicação não se sustenta sem acesso, sem presença e sem troca real.
Isso significa reservar tempo para conversas que não cabem na agenda apertada. Significa abrir espaço para entrevistas, eventos, podcasts e encontros de relacionamento. Significa participar da construção da narrativa, e não apenas aparecer no final do processo para aprovar textos ou cobrar resultados.
Quando esse investimento de tempo não existe, não há atalho. Nenhum profissional de PR, por melhor que seja, consegue gerar impacto relevante sozinho, sem contexto e sem envolvimento direto de quem lidera. Comunicação funciona quando vira um esforço compartilhado. O investimento financeiro importa, claro. Mas é a dedicação constante que sustenta essa equação.
Essa percepção me acompanha desde o começo da Beet. E ajuda a explicar por que a Beet Mag existe.
Desde que fundei a Beet, há três anos, havia uma inquietação difícil de ignorar: a sensação de que nem tudo o que importa cabe na velocidade em que o mercado costuma operar. Algumas conversas pedem mais tempo, mais cuidado e mais organização de pensamento. Com o passar dos anos, isso deixou de ser uma intenção difusa e virou método de trabalho.
A Beet Mag materializa esse método em outro espaço — físico, tangível, pensado para ser guardado e consumido com calma. Ela nasce como uma comemoração dos nossos três anos, mas não gira em torno de um aniversário. Gira em torno do que aprendemos até aqui.
Ao longo desse período, crescemos em projetos, clientes, formatos e ambição. Lançamos podcast, newsletter e participamos de diferentes mesas de conversa. Ainda assim, mantivemos um critério claro: nosso ponto nunca foi volume. Sempre foi intenção.
A revista da Beet nasce desse mesmo princípio. Um espaço editorial para aprofundar ideias, interpretar o mundo com rigor e organizar pensamentos que não cabem em carrosséis, slides ou manchetes de uma linha. Um convite à leitura atenta, à pausa e à reflexão — práticas cada vez mais raras e cada vez mais necessárias.
Sem atenção, não existe construção de longo prazo. Sem tempo, não existe comunicação consistente.
Entramos no próximo ciclo da Beet assim: mais maduros, conscientes do nosso papel e ainda mais comprometidos com o jeito que escolhemos trabalhar. A Beet Mag faz parte desse movimento — um projeto que nasce do pensamento e do tempo dedicado a ele.
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🟣 O que significa tempo em um mercado que está sempre correndo?
Existe uma sensação difusa no mercado de comunicação de que tudo acontece rápido demais — e de que, ainda assim, quase nada permanece.
Ideias surgem e desaparecem no intervalo de um feed. Tendências se consolidam antes de serem compreendidas. Discursos ganham escala antes de ganhar densidade. A velocidade virou padrão, critério e expectativa. Com ela, veio um tipo de cansaço difícil de nomear.
Nos últimos anos, a Beet tem observado esse movimento de perto. Em projetos, conversas e leituras, um padrão se repete: ciclos cada vez mais curtos reduzem o espaço para contexto. Quando a resposta vem antes da elaboração, a comunicação se aproxima mais de reação do que de construção. E reação, por definição, raramente sustenta algo que dure.
O Thought Leadership é um bom termômetro desse fenômeno. A ideia de liderar uma conversa foi, pouco a pouco, sendo comprimida em formatos rápidos, calendários de postagem e métricas de visibilidade. Em muitos casos, a fala precede o pensamento. A opinião circula antes de ser atravessada por repertório, experiência e contradição. O resultado é um excesso de presença e uma escassez de ponto de vista.
Pensamento leva tempo para se formar. Exige leitura, escuta, confronto de ideias e disposição para sustentar ambiguidades. Quando esse processo é encurtado, o que aparece é superfície. Há publicação, mas não há elaboração. Há frequência, mas não há acúmulo.
Outros temas reforçam essa mesma lógica. A inteligência artificial passou do deslumbramento à saturação em tempo recorde. O debate público se encheu de promessas e soluções prontas, enquanto questões estruturais — impacto real, maturidade econômica, governança — ficaram em segundo plano. A pressa organizou a conversa, mas empobreceu o entendimento.
Em paralelo, cresce o interesse por experiências que desaceleram. Não como nostalgia ou estética capturada pelo consumo, mas como tentativa de reorganizar a atenção. Leitura longa, objetos físicos, hobbies manuais e pausas conscientes apontam para um mesmo incômodo: nem tudo pode ser consumido em fragmentos.
A Beet Mag nasce desse contexto. Ela não surge para responder mais rápido, nem para ocupar mais um espaço. Surge para sustentar outro ritmo. Um espaço editorial onde ideias podem ser organizadas, aprofundadas e atravessadas por diferentes camadas de interpretação. Onde o pensamento não precisa disputar atenção a cada linha.
Fazer uma revista, hoje, é assumir que algumas conversas pedem mais tempo do que o mercado costuma conceder. Pedem leitura atenta, método e responsabilidade intelectual. Pedem a disposição de permanecer com as perguntas abertas tempo suficiente para que algo consistente se forme.
A Beet Mag não resolve a pressa do mundo. Mas oferece um intervalo consciente dentro dela — e, às vezes, é nesse intervalo que o que realmente importa encontra espaço.
🔴 Urgente VS importante
Por Gaía Passarelli, Head de Projetos Especiais da Beet
A Beet Mag é um projeto especial. Assim como o Thought Leadership, o podcast e a newsletter. Não porque sejam extraordinários, mas porque exigem um tipo de atenção que raramente cabe na rotina acelerada da comunicação.
Projetos especiais exigem algo que costuma faltar — e não estou falando de verba, mas de tempo. Tempo para pensar antes de executar. Esses projetos não nascem para resolver uma questão do agora, mas para crescer. E crescer leva tempo. Muitas vezes, são espaços de elaboração, teste e acúmulo — por isso mesmo, raramente se encaixam em decisões apressadas.
No dia a dia, vemos como oportunidades esbarram em uma resposta recorrente: “vamos ficar no arroz com feijão”. Quase nunca essa escolha é guiada por orçamento. Na maior parte das vezes, nasce da urgência de colocar algo em circulação, de instituir rapidamente uma presença, mostrar movimento.
O problema é que esse “arroz com feijão”, que fora da metáfora significa o básico que satisfaz, virou sinônimo de segurança. E, na prática, acaba resultando apenas em repetição: de formatos previsíveis, discursos conhecidos, resultados que se esgotam rápido e que, sem pedir desculpas pela franqueza, não convencem ninguém.
Projetos especiais costumam ser tratados como exceção, quando poderiam operar como método. Um projeto de Thought Leadership, por exemplo, existe quando deixa de ser um calendário de posts e passa a ser sustentado por leitura, repertório e continuidade.
Projetos que pedem maturação desafiam a lógica da pressa. Exigem planejamento, confiança no processo e disposição para sustentar discurso.
A Beet Mag existe porque escolhemos apostar nesse tempo — porque, em um mercado que corre para publicar, parar para pensar é um gesto profundamente estratégico.
🟣 O que ninguém te conta sobre construir uma revista (mas as séries e os filmes contam)
Por Rodrigo Sérvulo, Head de Comms da Beet
Quem pega uma revista pronta dificilmente imagina tudo o que veio antes: ideias que mudam no meio do caminho, textos que melhoram a cada versão, prazos apertados que aceleram o coração e decisões tomadas no limite do tempo. Produzir uma revista — ou uma newsletter, um podcast, qualquer tipo de mídia — é, quase sempre, um processo intenso, vivo e empolgante, feito de emoção, correria e colaboração.
Nas últimas semanas, vivemos isso de perto com a publicação da Beet Mag. Entre reuniões, ajustes de pauta, trocas de layout e aquela sensação constante de “acho que agora vai”, ficou impossível não lembrar de séries e filmes que mostram exatamente esse lado invisível da comunicação.
SPOILER ALERT — uma das minhas matérias na Beet Mag (tem uma foto no final deste texto!) é sobre produções que, indiretamente, dão dicas valiosas de comunicação. Então, por que não fazer o mesmo aqui? Mas falando de histórias que mostram os bastidores da construção de mídia, com aquele olhar que só quem está por dentro conhece.
🗞️ The Newsroom (HBO Max)
A série acompanha os bastidores de um telejornal com uma intensidade quase física. Reuniões editoriais viram arenas de debate, decisões precisam ser tomadas em minutos, e cada escolha carrega um peso ético enorme. The Newsroom é especialmente interessante por mostrar que comunicar não é apenas informar, mas assumir responsabilidade sobre o impacto da narrativa. Um lembrete constante de que clareza, contexto e timing são tão importantes quanto o furo.
🎭 Saturday Night (HBO Max)
Inspirado no universo do Saturday Night Live, o filme revela o caos criativo de um programa feito sob pressão extrema. Textos são escritos, descartados e reescritos até o último segundo, enquanto egos, inseguranças e genialidade convivem no mesmo espaço. É um retrato honesto de como boas ideias raramente nascem prontas — elas são lapidadas no atrito, no erro e na colaboração intensa.
🎬 The Studio (Apple TV+)
Com humor ácido, The Studio mergulha no cotidiano de uma produtora, onde criatividade e interesses comerciais disputam espaço o tempo todo. Ideias ambiciosas precisam se adaptar a orçamentos, expectativas e vaidades, e nem sempre o melhor conceito é o que chega à tela. A série mostra, com ironia, que comunicar bem também exige negociação, escuta e muita habilidade política.
🇧🇷 Saneamento Básico, o filme (Múltiplos streamings)
Entre improvisos e boas intenções, Saneamento Básico oferece uma das representações mais carinhosas e reais do fazer audiovisual no Brasil — e ainda conta com dois orgulhos nacionais, Fernanda Torres e Wagner Moura. Com poucos recursos e muita criatividade, os personagens descobrem que produzir uma obra é tanto sobre resolver problemas quanto sobre contar uma história. Um lembrete divertido e afetuoso de que limitações também podem ser motor criativo.
🔴 Tangibilidade e memória
Por Paula Deodato, Head de Comms da Beet
A Gloss, publicação da Editora Abril que circulou entre 2007 e 2013, era uma revista pensada para mulheres jovens que estavam começando a vida adulta. Falava de moda, beleza, comportamento, cultura pop e pequenas dicas práticas do dia a dia. Era leve, direta, visualmente chamativa e chegava uma vez por mês, em papel.
E eu assinava!
Esperar pela Gloss fazia parte da experiência. Não lembro exatamente quem entregava — se era o carteiro ou outra pessoa —, mas lembro de sair correndo quando ela chegava. A revista não aparecia no meio de outras distrações. Ela ocupava um espaço específico no tempo.
Eu gostava do que lia ali: as dicas, as matérias, aquele tom de conversa que parecia feito para quem estava tentando entender a vida adulta aos poucos. Ler a Gloss tinha um ritual: eu colocava um CD no meu mini-rádio e folheava sem ordem. Não era uma leitura rápida nem objetiva. Era o meu momento.
Hoje, a forma como consumimos conteúdo é diferente. Tudo chega ao mesmo tempo, o tempo todo. Trocamos a espera por atualização constante. A leitura disputa atenção com mil abas abertas, mil notificações e mil interrupções.
Mas publicações que conseguimos pegar na mão, como revistas, ainda importam porque oferecem algo que o digital raramente sustenta: um recorte claro, com começo, meio e fim. Um ritmo próprio. Elas não precisam ser atualizadas a cada minuto, porque foram pensadas para durar — uma tarde, um mês, uma vida.
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📌 Beet/nick 14: o hype do analógico
📜 Spoiler da Beet Mag: existe uma bolha da IA?
A inteligência artificial se tornou um dos temas mais barulhentos do nosso tempo. Novas ferramentas surgem diariamente, promessas se acumulam, e a sensação de novidade permanente convive com uma dificuldade crescente de separar avanço real de discurso inflado.
Quando decidimos dedicar uma reportagem de fôlego ao tema na Beet Mag, o desafio não foi acompanhar o debate, mas desacelerá-lo. Porque uma revista impressa não reage em tempo real: ela demora a existir. E, por isso mesmo, exige escolhas que façam sentido para além do momento.
A pergunta sobre uma possível bolha na IA não é nova, mas segue aberta. Na revista, a missão de esclarecer o cenário ficou com Anna Oliveira, Head de Dados da Beet. A reportagem atravessa ciclos tecnológicos, expectativas econômicas e decisões estratégicas que não se resolvem em manchetes.
O ponto de interesse não está em prever colapsos nem validar euforias, mas em organizar o debate com base em dados, estudos e leituras cruzadas.
Ao longo do texto, Anna parte de pesquisas acadêmicas, análises econômicas e falas de especialistas para separar utilidade operacional de maturidade financeira, promessa de entrega de discurso de operação. O resultado é menos uma resposta definitiva e mais um mapa para navegar um tema que continuará nos acompanhando.
Falar de IA em uma revista de papel é assumir que algumas discussões precisam durar mais do que o ciclo da novidade. Que certos temas pedem método, contexto e tempo para amadurecer. É nesse espaço, entre a pressa do agora e a construção do entendimento, que essa reportagem se insere.
🚀Sharing is caring
A Lalai Persson, autora da ótima Espiral aqui no Substack, explica a obsessão coletiva com 2016 a partir de um recorte musical:
A música que dominava as pistas tinha a mesma estrutura, um começo que insinuava, um meio que acumulava energia, e o momento aguardado: o drop. The Chainsmokers (“Closer”), Calvin Harris (”This Is What You Came For”), Martin Garrix (“In The Name of Love”), DJ Snake (“Let Me Love You”), estilos diferentes dizendo a mesma coisa: aguenta mais um pouco, segura essa tensão, que daqui a pouco explode.
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Mas você pode mandar pra alguém antes disso:












Parabéns pela edição e pela revista!
Quero essa revista!!!
E obrigada pela menção. ♥️