Beet/nick #007 | criar é humano
A fase três da economia criativa.
Na edição de hoje da beet/nick, falamos sobre a fase três dos creators — quando postar e monetizar dá lugar a construir estúdios e assumir espaço estratégico. Também trazemos reflexões sobre IA e criatividade humana, que vão da literatura ao tarô, e comentamos a chegada do Tiny Desk ao Brasil. Por fim, destacamos o novo episódio do É Sobre Isso, podcast da Beet com a Ampère.
Bora?
A beet/nick é a newsletter da Beet. Publicada quinzenalmente, ela existe para acompanhar de perto as mudanças no modo como criamos, comunicamos e colocamos sentido no que circula.
🌀 Creators 3.0: criadores como estúdios criativos
Um movimento silencioso vem ganhando tração: criativos que antes atuavam como pejotas, participando de trabalhos pontuais e navegando a lógica louca da gig economy, estão fundando estúdios, coletivos e consultorias capazes de entregar projetos complexos, com método, rede e visão de longo prazo.
Não existe um nome definitivo, mas já dá para enxergar contornos nítidos nesse ecossistema, que funciona como uma alternativa às agências tradicionais. Ao invés de fazer posts ou campanhas, criadores constroem equipes capazes de assumir um processo inteiro de pesquisa, estratégia e execução, construindo algo que mantém autenticidade.
O Caio Andrade e o Túlio Tavanielli, no LinkedIn, chegaram a rascunhar um título para: TACA – The Alternative to Creative Agencies. No post, eles mapeiam alguns coletivos que orbitam entre design, branding, audiovisual e produção cultural, citando nomes como Buena Onda (Mari Pachaly e Márcio Bento), Coolhunter Favela (Rafaela Pinah 🏳️⚧️), Ampère (Cris Dias), Beta Collective, Sem Rótulo, Pálpebra, Ugly Lab (Daniel Padilha), PaPoCo Ideas, 20DASH, Dawn, Rima (Maite Albuquerque e Rick Souza), 65 | 10, Cleiton (do próprio Caio Andrade) e Magic Lab (Henry Mandelbaum).
Do conteúdo à consultoria
Esse movimento local conecta-se a uma transformação global: nem todo creator quer ser visto como influenciador e muitos desejam ou precisam romper a barreira da produção de conteúdo. O caminho é usar a vasta experiência para se tornarem consultores estratégicos, empreendedores e líderes de negócios.
O que antes era visto como influência limitada ao feed das redes sociais hoje se expande para as mesas de decisão das empresas. Marcas como a Paramount já contratam criadores como consultores para moldar produtos e estratégias, aproveitando o conhecimento profundo que eles têm de suas audiências.
Esse movimento acompanha a ascensão da creator entrepreneurship, em que nomes antes conhecidos apenas pelo conteúdo digital passam a assumir papéis de CEOs, fundadores de startups e donos de marcas próprias.
Nesse contexto, o LinkedIn emerge como palco simbólico e estratégico: figuras enormes como Anitta e Snoop Dogg têm migrado para a plataforma justamente para ocupar seu espaço de liderança e negócios, para além de artistas, deixando claro que sua influência alcança questões de estratégia e comunicação.
Em paralelo, as próprias marcas estão mudando o modelo de relação, substituindo publis pontuais por parcerias de longo prazo, que envolvem co-criação de produtos, contratos continuados e até participação acionária — um reflexo direto da maturidade do ecossistema.
Casos que viraram negócio
A transformação de criadores em empreendedores já gerou exemplos icônicos pelo mundo — e o Brasil também está nesse mapa. MrBeast (Jimmy Donaldson) deixou o YouTube para fundar empresas bilionárias como Beast Burger e Feastables. Mark Rober, ex-engenheiro da NASA, criou a CrunchLabs, negócio educacional que envia kits de ciência para crianças e adolescentes. Marianna Hewitt cofundou a marca de skincare Summer Fridays, hoje consolidada globalmente. Negin Mirsalehi transformou a herança familiar de apicultura na marca de beleza Gisou, referência em haircare. Na Índia, Nitibha Kaul usa sua base de fãs para lançar negócios D2C, mostrando a força desse movimento em mercados emergentes.
No Brasil, país continental e um dos maiores consumidores de produtos de beleza no mundo, o fenômeno é igualmente poderoso. Bruna Tavares e Camila Coutinho já competem com gigantes como L’Oréal, profissionalizando suas marcas de beleza e assumindo o papel de CEOs. Entre elas, a jornalista, Victoria Ceridono — jornalista, criadora do blog Dia de Beauté e ex-editora da Vogue — lançou a Vic Beauté, marca de maquiagem com produtos multifuncionais que traduz sua autoridade no setor em um negócio próprio.
Vivemos em um país continental, apaixonado por beleza e por influenciadores, com uma indústria madura capaz de entregar qualidade excepcional. É nesse cenário que a categoria “mastige” — prestígio acessível — se consolida com produtos nacionais, fruto da ousadia de criadoras que souberam se tornar empresárias.
A lógica das marcas
Se do lado dos criadores o salto é da produção para a consultoria empreendedora, do lado das marcas a resposta tem sido incorporá-los como parceiros estratégicos.
O processo começa muitas vezes com auditorias para identificar profissionais cujos valores e públicos estejam alinhados com a identidade da empresa. A partir daí, a relação pode evoluir para diferentes formatos: contratos de longo prazo, co-criação de produtos e até participação acionária. A Paramount, por exemplo, já convidou creators para atuar como consultores em decisões de produto e estratégia, reconhecendo que eles conhecem o comportamento das audiências de maneira mais profunda do que qualquer pesquisa tradicional.
A Rare Beauty, marca de Selena Gomez, fez do Substack um espaço para compartilhar bastidores de design, desenvolvimento de produtos e feedback direto com os assinantes — transformando a comunidade em parte ativa do processo. Em todos esses casos, os criadores passam a atuar lado a lado com as equipes de marketing e produto, oferecendo insights contínuos e ajudando a garantir práticas de transparência e conformidade em um cenário onde confiança e autenticidade são ativos centrais.
Leia também
📌 beet/nick 006: como as marcas estão chegando no Substack
🔮Madame IA conta seu futuro
Entre entusiasmo e resistência, a inteligência artificial segue ocupando novos territórios da criação. No Brasil, a escritora Fabiane Guimarães, de Brasília, lançou recentemente o Tarobot, plataforma que simula consultas de tarô a partir de seus estudos pessoais. O projeto é exemplar porque não coloca a IA como substituta da intuição humana, mas como infraestrutura para transformar ideias em produtos acessíveis.
“A IA não precisa ser uma vilã! Acho impossível que ferramentas de inteligência artificial substituam a potência da criatividade humana. Não acredito que um robô um dia vá escrever um livro melhor do que eu, porque ele não tem o meu olhar e a minha referência de vida”, diz a autora.
Além do Tarobot, a escritora criou também a Prateleira, um portal de lançamentos de ficção nacional. Os dois projetos nasceram da mesma lógica: usar a IA como catalisador para executar ideias que antes ficavam na gaveta.
“Para quem gosta de ter ideias e colocá-las no mundo, as ferramentas de IA abrem um portal gigantesco de possibilidades. Não quero deixar a IA escrever ou pensar por mim. Mas que ela é boa em me ajudar a colocar ideias em prática, isso ela é.”
Críticos lembram que, no tarô, a leitura vai além de recitar significados. Envolve intuição, repertório e conexões improváveis — dimensões que nenhuma IA é capaz de reproduzir de fato. Além disso, há divergências sobre quais tradições ou baralhos devem servir de base, já que cada escola traz interpretações diferentes. Ainda assim, o Tarobot aponta para um uso mais pragmático da tecnologia: em vez de rivalizar com a sensibilidade humana, a IA serve como plataforma de experimentação e disseminação de projetos criativos.
No fim, a questão não é se a máquina substitui o humano, mas como criadores como Fabiane a reposicionam como ferramenta de autoria ampliada, transformando repertório pessoal em experiência compartilhada.
Veja mais:
📌 tarotbot
📙 E falando em IA…
por Gaía Passarelli, Head de Conteúdo da Beet
No ensaio “Escrever é Humano” (Companhia das Letras), o escritor carioca Sérgio Rodrigues reflete sobre a escrita literária em tempos de inteligência artificial. Longe de se limitar ao debate tecnológico, o livro funciona como um manifesto humanista: escrever, para Rodrigues, é um ato irredutivelmente humano, que envolve inteligência, mas também intuição, desejo e experiência — dimensões que nenhuma máquina pode replicar.
Com humor e erudição, o autor discute temas como a busca por voz própria, as técnicas de escrita, o impacto social da literatura e seu papel como resistência à uniformização imposta pela tecnologia. O resultado é um texto que serve tanto como ferramenta inspiradora para escritores quanto como guia de leitura para quem acredita que a literatura ainda é um território dos vivos.
A carreira de Sérgio Rodrigues reforça essa autoridade: jornalista, romancista e cronista carioca, colunista e colaborador frequente da Folha de S.Paulo, ele transita entre ficção e ensaio com atenção à língua e à cultura brasileiras. Ao situar a escrita no centro do debate contemporâneo sobre inteligência artificial, Rodrigues reafirma a literatura como espaço de singularidade e humanidade — uma contra-força necessária diante da lógica algorítmica.
Ainda nesse assunto, vale ouvir o episódio do É Sobre Isso, o podcast da Beet, sobre questões pertinentes da IA no trabalho, nos aprendizados, na vida, no universo e tudo o mais:
Leia mais
📌Agência Brasil: Inteligência artificial ameaça aprendizado da escrita, alerta autor
📌 Quatro Cinco Um: Escrever é humano: como dar vida à sua escrita em tempo de robôs
🪩 Beet-it: Cultura como código
A agência londrina Sibling Studio criou o framework chamado Culture as Code. Vale conhecer (imagem abaixo). É uma forma sistemática de decodificar cultura em seis eixos: identidade, bem-estar, códigos estéticos, rituais, plataformas e valores.
A imagem abaixo sintetiza esse exercício: de trends como o revival Y2K a rituais de consumo como os vídeos de unboxing; de práticas de saúde transformadas em dados (glucose tracking, saunas, protein culture) até movimentos sociais de descolonização e justiça climática.
O insight é direto: não basta correr atrás da velocidade da cultura. Confundir visibilidade com relevância é um erro comum — porque buzz nem sempre significa valor. O trabalho da Sibling mostra que, ao ler os códigos que atravessam o cotidiano, conseguimos compreender como as pessoas realmente vivem, se organizam e criam sentido.
Na Beet, esse olhar também é parte da metodologia. Comunicação não é só entrega de mensagem: é leitura de contexto. Narrativa não é só storytelling: é tradução de sinais culturais em linguagem clara, estratégica e aplicável. Resultados não são apenas métricas de alcance: são impactos que permanecem, porque se alinham àquilo que já mobiliza comunidades, desejos e comportamentos.
Cultura como código é, no fundo, o que guia nosso trabalho — observar, interpretar e devolver ao mercado algo que tenha direção, clareza e relevância
🎶 Tiny Desk eeeeeeeeé do Brasiiil!
O Tiny Desk Concert, criado em 2008 pela NPR nos Estados Unidos, é daqueles formatos que parecem simples demais para virar fenômeno — e por isso mesmo funcionam. Uma mesa de escritório, uma plateia reduzida e artistas convidados a mostrar sua música sem filtros.
O resultado: mais de 3,5 bilhões de visualizações no YouTube, quase mil apresentações e uma coleção de momentos que já viraram história, como T-Pain cantando sem autotune em 2014, Milton Nascimento em versão intimista ou Alicia Keys transformando um espaço mínimo em palco global.
Em setembro, veio o anúncio que muita gente esperava: o Tiny Desk vai ganhar uma versão brasileira. Produzido pela Anonymous Content Brazil em parceria com o YouTube Brasil, o projeto estreia em outubro diretamente do escritório do Google em São Paulo. Serão duas temporadas de cinco apresentações, com patrocínio da Volkswagen e da Heineken, transmitidas pelo canal TinyDeskBrasil no YouTube.
O Brasil é o segundo país que mais assiste ao Tiny Desk original — e agora se torna o terceiro, depois de Japão e Coreia do Sul, a ter uma adaptação própria. Faz sentido: se o formato foi pensado para capturar a autenticidade da música no estado mais cru, não existe território mais fértil do que o da música brasileira para esse tipo de registro.
A chegada do Tiny Desk ao Brasil não é só uma vitória para fãs de música. É também um sinal da força da nossa cultura no cenário global e da estratégia do YouTube de se afirmar como epicentro cultural, conectando vozes locais a audiências internacionais. Se a fórmula do projeto sempre foi aproximar artistas do público por meio da simplicidade, a versão brasileira promete amplificar essa essência com a nossa música — que nunca precisou de muito para ocupar o mundo inteiro.
🎧É Sobre Isso: quem ouve tanto feedback?
Feedback já foi sinônimo de aprendizado. Mas virou fonte de ansiedade. Seja no corredor da empresa, em uma reunião improvisada ou até na contagem de curtidas de um post, a sensação é de que estamos sendo avaliados o tempo todo.
E, em vez de clareza, sobra confusão: quando alguém diz “tenho um feedback pra você”, afinal, está elogiando, sugerindo, avaliando — ou tudo isso misturado?
No novo episódio do É Sobre Isso, Gaía Passarelli, Catarina Cicarelli, crisdias e Guilherme Pinheiro mergulham nesse tema que mexe com a vida profissional e pessoal de todos nós. Eles exploram como o feedback, mesmo quando bem-intencionado, pode desestabilizar; por que confundimos apreciação com avaliação; e de que forma a busca constante por validação digital tornou a conversa sobre desempenho ainda mais caótica.
Entre referências, provocações e experiências pessoais, o episódio mostra que talvez o problema não seja “dar” ou “receber” feedback, mas sim a dependência que criamos dele para validar o que fazemos. A saída? Criar espaços de diálogo mais claros, horizontais e genuínos, onde a apreciação não se disfarce de julgamento.
🎙️ O É Sobre Isso é um podcast da Beet e da Ampère. O episódio já está disponível no Spotify, YouTube e em todas as plataformas de áudio.
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👉🏼 Roteiro e pesquisa de Alexandre Maron.
👉🏼 Direção e produção de Anna Maron.
👉🏼 Edição de áudio e vídeo de Jessica Correa.
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A Beatriz Guarezi, criadora da plataforma Bits to Brands, escreve newsletters desde 2018 e na ediçao mais recente compartilha o que mudou (e vem mudando!) no formato e contando como começaria (ou recomeçaria) uma newsletter em 2025.
Um texto lúcido sobre profundidade, frequência e originalidade em meio ao excesso de informação, tremenda leitura para quem pensa em criar, repensar ou fortalecer sua presença nas caixas de entrada mundo afora.
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A beet/nick volta em 15 dias. Até lá, deixe seu coraçãozinho pra sabermos que você curtiu, e compartilhe nossa newsletter com alguém que vai gostar de conhecer:






